quarta-feira, 16 de março de 2016

- E aí Ronaldo, você é gay?

 - Sim. Claro. Sempre fui. - essa resposta vem a minha cabeça automaticamente, de mãos dadas com outros discursos como: "qual o seu interesse em saber sobre meus desejos sexuais?", "em qual momento minha sexualidade muda sua vida?", etc...
 Mas quase nunca discorro tudo isto quando estas perguntas chegam galopando nos momentos que eu menos espero. Parece-me que sou abatido por uma confusão mental gigante e muitas outras questões me vem a cabeça e normalmente eu devolvo: "Amor, sou seu amigo para falar sobre tudo da minha vida?"...
 Esta semana passei por três momentos de tensão (homofóbicos ou em determinado sentido nesta linha), assim como estes questionamentos, que são recheados de preconceito e discriminação que acredito eu são aprendidos e construídos pela própria sociedade.
 1 - Fui a um aniversário em uma das maiores baladas gays de uma colega de trabalho (mulher, cisgênero, e hétero). Chegando lá, me senti alvo de vários comentário como: "se joga", "olha quantos homens na pista, faz a festa", "mostra que você sabe mexer", "se não fosse gay eu pegaria fácil", "eu também", "eu também²", "eu também³"...
 Desde quando eu preciso ir a uma balada para ter contato com outros rapazes? E desde quando eu preciso saber que as mulheres com as quais eu convivo teriam uma atração qualquer por mim? Por que eu preciso rebolar, dançar igual a Beyonce, etc. para demonstrar minha sexualidade?
 2 - Estava na sala dos professores cercado de colegas de trabalho quando ouço uma das professoras começar a falar como ela aprendeu a reconhecer um gay no seu carnaval. Segundo ela os gays utilizam bermudas acima do joelho enquanto os héteros sempre as usam abaixo. Fiquei ouvindo aquilo só sem comentar nada.
 Desde quando o comprimento das roupas de alguém é determinando nos seus desejos sexuais? Fiquei engasgado, mas não disse a ela que não tenho bermudas acima do joelho, mas sou gay também, assim como poderia ter falado mal da sua roupa feia e fora de época.
 3 - Mas o pior aconteceu com uma aluna. Com todos seus 10 anos de vida ela começou a questionar se eu tenho namorado e o porquê de não ter uma. Até aí eu disse que no atual momento de trabalho, dois estágios obrigatório, corrida, academia, faculdade e todas as outras coisas normais da vida não teria tempo nem vontade de começar um relacionamento no momento. Afinal ela não precisa saber que eu até tenho esta vontade, só me falta o namorado, mas compreendi que seria uma explicação plausível.
 Lecionei as aulas daquele dia e quando desço para o momento de descanço conhecido como recreio, a professora que trabalha comigo nesta sala e chama de canto e me conta o que acabou de acontecer. Sabe a aluna das perguntas sobre namorada? Então questionou a esta professora sobre a possibilidade de eu ser gay. E ainda argumentou: ele não namora, corre e faz academia. Acabei dando risada do seu conceito de homosexual.
 Ainda bem que trabalho diretamente com colegas de trabalho ótimas e esta situação foi revertida até hoje sem grandes rebuliços na sala e na escola. Mas qual esta necessidade de escancarar meus desejos sexuais aos quatro cantos da Terra? Por que eu não posso simplesmente viver em situações cotidianas sem ter que mostrar que gosto de outros homens? Como se opera esta hierarquização de sexo, gêneros e desejos, que se formam desde a mais tenra idade sujeitos preconceituosos e discriminadores?



6 comentários:

  1. Visões estereotipadas. Essa da roupa é realmente curiosa. Não sei como vai a moda aí no Brasil, mas por cá, na Europa, creio que já é difícil ver uma "bermuda" por baixo do joelho. Na verdade, designamos de calção quando é por cima do joelho, e bermuda se passar o joelho. Há uns anos era comum ver por baixo do joelho. Modas... Independentemente se hetero ou gay, o vestuário está muito padronizado.

    Creio que você deve continuar agindo naturalmente, sem prestar a mínima importância a esses mexericos. Um gay não tem necessariamente de sair por aí com homens, assim como um hetero não tem de ter várias mulheres. E nem tem de namorar para ser feliz.

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    1. Entendo pouco sobre moda, mas acredito que bermuda por aqui é algo abaixo do joelho e shorts quando está acima. Ainda há uma diversidade de estilos e possibilidades de escolhas grande por aqui. Até quem segue a moda leva um bordão, os "fashionistas". Mas como os ambientes héteros ainda são marcados por um machismos por vezes até velado, este comentário me deixou indignado com a criatividade deste ser em fazer tal comparação. Imagino eu quando ela for por aí e descobrir que os homens não cobrem os joelhos. rsrsrs... Não gosto de me expor neste tipo de situação, por isto só ouço...

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  2. Preciso conferir rapidamente as minhas bermudas... e encurtar as que for preciso para não deixar dúvidas! rsrsr

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    1. Estou brincando de ser gay ou não, dependendo do tamanho dos meus shorts.

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  3. apertei o enter e meu comentário ficou incompleto!
    Claro que todos estes esteriótipos são ridículos - vai em balada gay tem que pegar homem, mostra as pernas é gay, faz academia e nao namora... é o velho problema das pessoas querente rotula e colocar tudo em caixinhas, as pessoas ficam loucas de encontrar algo fora da regra, então ficam fazendo regras... a opção é fazer como vc fez e levar no bom humor ou ficar bravo e brigar.... E ficar bravo não esta com nada! então a solução é o bom humor!

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    1. Acreditando cada vez mais que as melhores lições são aprendidas naqueles momentos em que há diálogo e brigar vai de encontro a este ideal.
      Abraços.

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Agradeço muito a sua participação! Abraços!

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